quantas vezes vou me refazer até não existir mais eu em mim

me desdobro e me desfaço e me refaço e me redobro. a casa não tem mais gosto de casa e as pessoas não têm mais gosto algum daí tudo que sobra é esse amargo na boca de quem foi morder a fruta com a boca boa e desistiu na primeira mordida. estou como sempre estive: parada observando a vida das coisas, puxando todo esse ar vivo para dentro como se ele fosse me levar junto. esqueço de soltar o ar e às vezes só lembro quando observo outra vida em outra coisa e penso se não quero roubar um ar diferente. puxo para dentro todos os segredos que guardo para te contar e nunca conto. e nunca solto. não sei soltar o que é meu. todos os 365 dias de cada um dos meus 20 anos são meus e meus e só meus e a verdade é que preciso saber. preciso saber, caso eu ceda e solte, para onde é que eles vão? para onde vai a tristeza depois que se torna insuportável carregá-la para todo canto? para cima, para baixo, para a esquina, para o fim (mas nunca para dentro). e se eu largar mão de todas essas minhas vidas que carrego e no fim das contas não existir mais vida em mim, e aí? sei que não é verdade, mas as inverdades me assustam invariavelmente porque na hora de sentir não sei diferenciar o que estou sentindo para além daquilo que me assusta.

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