eu as quero de volta.
todas as minhas virtudes.
todas as minhas camadas.
as palavras, o amor, a força,
a esperteza,
as garras.
fui as perdendo, uma a uma.
esvazio-me a cada fardo que carrego,
e logo,
nada de mim irá sobrar.
não sei como as ter de volta.
não sei onde colocar o peso.
alguém me diga:
onde guardar meus fardos,
desde que possa voltar para buscá-los —
por precaução,
pois são meus.
são tudo que é meu agora.
em último caso,
uso-os para me reconstruir.
embora aí esteja o perigo:
construir uma muralha
e não ter escapatória,
a não ser me torná-la.
seria esta a vida adulta?
um eterno reconstituir-se,
quando nem sabemos
se aquilo que almejamos refazer
sequer existiu.
às vezes,
o que parece sólido à alma
existe apenas no plano da alma.
intangível.
talvez seja,
talvez tenha sido,
talvez nunca foi,
talvez nunca será.
talvez minhas virtudes
e meus fardos
sejam apenas areia.
talvez sejam um mito.
talvez estejam guardados
debaixo do travesseiro.
não sei
e não me pergunte.
só lhe digo que são meus.
talvez meus fardos
sejam uma expressão azeda
do passar do tempo,
e minhas virtudes,
uma doce lembrança
do passado.